ODONTOLOGIA DO SONO: ABORDAGEM ODONTOLÓGICA AOS DISTÚRBIOS DO SONO

ABORDAGEM ODONTOLÓGICA AOS DISTÚRBIOS DO SONO

Por Marco Aurélio Gouvêa Bomfim – CRO 21921

Medicina do Sono teve seu início há cerca de 50 anos, quando foi possível demonstrar, através de equipamentos específicos, que o corpo humano não fica totalmente desligado durante o sono e que esse é um rico momento fisiológico onde acontecimentos fundamentais à saúde têm o seu lugar. Como pontos marcantes, em 1929 o neuropsiquiatra alemão Hans Berger fez registros de eletrocilogramas em humanos e o registro gráfico resultante foi denominado eletroencefalograma ou EEG. Nos anos de 1937, 1938 e 1939, os fisiologistas americanos Loomis, Harvey e Hobart realizaram o primeiro estudo sistemático dos padrões eletroencefalográficos durante o sono humano. Em 1970 a Universidade de Stanford (Califórnia – EUA) criou o primeiro Centro do Sono.

 Através da Medicina do Sono, com participação recente da Neurociência, ficou ainda mais comprovada a importância do sono no ciclo diário de vida (ciclo circadiano) dos seres humanos e foram desvendadas as causas de alguns de seus distúrbios. Como alguns dos distúrbios do sono possuem sua origem em estruturas localizadas no trato respiratório superior, não tardou à Odontologia, juntamente com Psicólogos, Assistentes Sociais, Fisioterapeutas, Fonoaudiólogos, Biólogos, Biomédicos, Terapeutas Ocupacionais, Enfermeiros e profissionais da Educação Física, integrar a equipe multidisciplinar da Medicina do Sono que busca a conquista de um sono de alta qualidade fisiológica, rotineiramente chamado de “Sono Reparador” (não seria o sono dos justos?). Há cerca de 30 anos a Odontologia participa da Medicina do Sono oferecendo tratamento com excelentes resultados para os quadros clínicos de Bruxismo, Ronco, Apneia Obstrutiva do Sono e demais distúrbios associados.

bruxismo

Bruxismo é uma parafunção da musculatura mastigatória podendo ocorrer durante a vigília ou durante o sono, podendo ainda este último ser classificado como primário (ou idiopático) ou secundário (condições clínicas, retirada de drogas ou substâncias clínicas).  Quando o quadro clínico se dá durante o sono ele é chamado de bruxismo do sono (BS), do contrário é denominado bruxismo de vigília (BV). O bruxismo de vigília (BV) e o bruxismo do sono (BS) são considerados entidades diferentes por ocorrerem em estados fisiológicos distintos com diferentes etiologias e abordagens terapêuticas. O BS se manifesta através de ranger ou apertamento dentário, podendo estar associado ao despertar. Afetando de 3 a 20% da população adulta é reconhecido, atualmente, como um distúrbio de movimento relacionado ao sono. Vale lembrar que “alguém” paga o preço da parafunção: os dentes através do desgaste, o periodonto através da perda óssea e do abalo dentário ou a(s) ATM(s) através de inflamação e dor (são comuns as cefaleias matinais decorrentes do acúmulo de ácido lático por ser uma atividade anaeróbica). O Bruxismo possui causa multifatorial e é comum estarem relacionados stress físico, stress emocional, sobrecarga dos músculos mastigatórios, interferências oclusais e/ou patologias no trato respiratório superior.

Ronco é o nome dado ao barulho causado pela vibração de tecidos do trato respiratório no momento da passagem do ar, possuindo assim a classificação atual de distúrbio respiratório relacionado ao sono. Possui causas anatômicas (excesso de tecidos e/ou flacidez dos mesmos) e, atualmente, deixou de ser considerado apenas como um problema social e/ou familiar e tornou-se um alerta para diversos problemas futuros como a Apneia do Sono e suas consequências. O único estudo brasileiro existente sobre o ronco, realizado pelo Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo, em 1995, mostra que antes dos 40 anos, 26,5% dos homens e 9% das mulheres roncam mais do que três vezes por semana. Depois dessa idade, possivelmente pela influência da menopausa ou do aumento de peso corpóreo, o número de mulheres quase triplica e passa para 25%, enquanto os homens chegam a 36% (Bagnato, 2008). É importante salientar que quem ronca está fazendo um esforço respiratório indesejado cerca de 20% maior do que o da respiração normal. Desta forma, o ronco promove superficialização do sono privando seus portadores dos benefícios indispensáveis do sono profundo (descanso da musculatura, consolidação da memória,  acontecimentos fisiológicos específicos como liberação de hormônios e outros).

Apneia Obstrutiva do Sono (AOS) é o nome dado à interrupção da respiração durante o sono, devido a uma obstrução total da passagem do ar pelos tecidos do trata respiratório por estarem estes em excesso e/ou  flácidos (no caso de obstrução parcial dá-se o nome de hipopneia), também sendo atualmente classificada como um distúrbio respiratório relacionado ao sono. Apresenta prevalência de 9% a 24% em homens e de 4% a 9% em mulheres na faixa etária de 30 a 60 anos. Em indivíduos com mais de 65 anos a prevalência aumenta para cerca de 65%. Quando as paradas respiratórias possuem mais de 10 segundos de duração estando ainda associadas à desoxigenação da corrente sanguínea e à sonolência diurna, é classificada comoSíndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) e possui registro no Código Internacional de Doenças (CID-G47.3). Atualmente é considerada potencial causadora de problemas cardíacos (arritmias cardíacas, hipertensão, enfarto, AVCs e outros) por causar envelhecimento excessivo do sistema circulatório. Possui ainda consequências psíquicas, endocrinológicas e sociais.

A possibilidade de atuação da Odontologia é, exceto no caso do bruxismo, em distúrbios respiratórios do sono. Assim sendo, deve ser dada atenção especial às principais causas de obstrução total ou parcial do trato respiratório superior ou fatores de agravamento da mesma:

  • desvio de septo;

  • hipertrofia de cornetos;

  • hipertrofia adenoideana;

  • presença de pólipos;

  • hipertrofia amigdaliana;

  • quadros alérgicos;

  • assimetrias faciais;

  • problemas oclusais (verticais, transversais e horizontais).

Este é um dos momentos em que se constata a multidisciplinariedade dessa nova área de tratamento! A Odontologia pode oferecer possibilidade de tratamento através de orientações, correções ortodônticas, cirurgias e órteses, também conhecidas como aparelhos intra orais (AIOs). Os AIOs para tratamento dos distúrbios do sono podem ser para uma das arcadas, como no caso do Bruxismo (a arcada superior é a mais escolhida por oferecer  melhor retenção da órtese), ou para ambas como no caso do Ronco e da Apneia do Sono. Os AIOs para tratamento do Ronco e/ou AOS podem pertencer a quatro diferentes tipos, segundo seus mecanismos de ação (QUINTELA, 2002), podendo, atualmente, incorporar mais de um mecanismo para desobstrução da passagem do ar:

Tipo 1: Órteses retentoras de língua;

Tipo 2: Órteses elevadoras do palato mole;

Tipo 3: Aparelhos estimuladores do sistema proprioceptivo oral;

Tipo 4: Órteses de reposicionamento mandibular.

placas

Em relação ao tratamento da AOS com AIOs, estudos apontam para uma expectativa de sucesso de 70% nos casos apneia leve, 60% nos casos de apneia moderada e 40% nos casos de apneia grave. Fatores como IAH (índice de apneia/hipopneia), IMC (índice de massa corporal), sexo e retrognatismo mandibular, bem como capacidade de avanço da mesma, interferem na expectativa de sucesso. Através da experiência clínica de mais de 700 atendidos, obtive índices mais favoráveis em meu consultório e proponho a seguinte escala de procedimentos para o tratamento de ronco e/ou apneia obstrutiva do sono:

tratamento

Assim sendo, os dados atuais sobre a Abordagem Odontológica aos Distúrbios do Sonoa colocam como porta de entrada para novos pacientes nos consultórios odontológicos e ferramenta valiosa na busca pela melhoria da qualidade de vida da população.

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Marco Aurélio Gouvêa Bomfim – CD        CROMG 21921

Especialista em Ortodontia e Ortopedia Facial

Especializado no tratamento dos Distúrbios do Sono

Fellow of Sleep Laboratory – Dalhousie University – Canadá

Presidente do I Simpósio de Odontologia do Sono de Minas Gerais

Presidente da Associação Mineira de Odontologia do Sono – AMOS

fone 55 (31) 3227.6443 (consult.)

mailto: marcoortodontia@oi.com.br

site: www.marcoortodontia.com.br


BIBLIOGRAFIA
BAGNATO, Maurício, 2008. Disponível em: <http://revistavivasaude.uol.com.br/Edicoes/15/artigo9239-1.asp> Acesso em: 21 fev. 2013.
BRANCO, Anete; FERRARI, Giesela Fleischer, WEBER, Silke Anna T.  Alterações orofaciais em doenças alérgicas de vias aéreas. Revista Paulista de Pediatria[online].vol.25, n.3, 2007.
Ceneviva, R, Silva GA, Viegas MM, Sankarankutty AK, Chueire FB. Cirurgia bariátrica e apnéia do sono. Medicina (Ribeirão Preto) 2006; 39 (2): 235-245.
MANCINI, Márcio C., ALOÉ, Flávio; TAVARES, Stella. Apneia do sono em obesos. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, São Paulo, v. 44, n.1, 2000.
Thuler Eric Rodrigues, Dibern Ralph Silveira, Fomin Denílson S., Oliveira José Antônio A. Uvulopalatoplastia a laser – Análise comparativa da melhora clínica e dos critérios de indicação.  Revista Brasileira de Otorrinolaringologia. v.68, n.2, São Paulo, Mar./Abr. 2002.
BIBLIOGRAFIA  RECOMENDADA
DAL FABBRO, Cibele; MAIA C. Jr, Cauby; TUFIK, Sérgio. A Odontologia na Medicina do Sono. 1a ed, Maringá. PR: Dental Press, 2012.

Fonte: ABORMG